não abranda a chuva
não abranda a chuva
sou eu que canto
o que não estou devastado
o que desapareço
o fino detalhe do absurdo
ao estilo de quem tem um jogo
e vê o tabuleiro invisível
flutuando como um pêssego
entre as frias pernas da noite
não abranda a chuva
nem eu entendo o facho
que me guia à tua fruta
por esta língua que me arde
por estas mãos que se perdem
nos bolbos do teu peito
derramo este vinho secular
bebo-te pelo vértice fecundo
e canto
um narcótico que explode nos dedos
que só é vasta e crepuscular
aridez incalculável
de instrumentos calcinados
apressa-me neste lugar
a terra branda do teu corpo
onde me esconda
onde me esqueça
nas curvas prateadas da noite
em que abro a porta e não abranda
a minha fome chovendo dentro de ti
enquanto parte o mármore
este tempo que nos afoga
no mesmo pedaço de chão
em que se enterram os desejos
acendo na frágil inocência
a erva fresca do teu ventre
por onde fujo
hei-de encontrar o teu orvalho
quando sentir o cheiro do húmus
descobrirei a fruta aveludada
e a intermitência dos fluidos
com que tu me devoras
o que eu te mordo
enquanto não abranda
voraz e cortante
esta chuva que nos colhe
é uma árvore rasgada do silêncio
dobrada sobre o sal do oceano
até onde o mundo nos naufrague
gastos de ser o que somos
não mais que um medo de dizer
o quanto dói o que eu te amo
que é só dentro das tuas páginas
nas tuas húmidas e fecundas letras
