AGONIA (isto é um tema funky, como no baile)

March 28, 2008

não abranda a chuva

não abranda a chuva
sou eu que canto
o que não estou devastado
o que desapareço
o fino detalhe do absurdo
ao estilo de quem tem um jogo
e vê o tabuleiro invisível
flutuando como um pêssego
entre as frias pernas da noite
não abranda a chuva
nem eu entendo o facho
que me guia à tua fruta
por esta língua que me arde
por estas mãos que se perdem
nos bolbos do teu peito
derramo este vinho secular
bebo-te pelo vértice fecundo
e canto
um narcótico que explode nos dedos
que só é vasta e crepuscular
aridez incalculável
de instrumentos calcinados
apressa-me neste lugar
a terra branda do teu corpo
onde me esconda
onde me esqueça
nas curvas prateadas da noite
em que abro a porta e não abranda
a minha fome chovendo dentro de ti
enquanto parte o mármore
este tempo que nos afoga
no mesmo pedaço de chão
em que se enterram os desejos
acendo na frágil inocência
a erva fresca do teu ventre
por onde fujo
hei-de encontrar o teu orvalho
quando sentir o cheiro do húmus
descobrirei a fruta aveludada
e a intermitência dos fluidos
com que tu me devoras
o que eu te mordo
enquanto não abranda
voraz e cortante
esta chuva que nos colhe
é uma árvore rasgada do silêncio
dobrada sobre o sal do oceano
até onde o mundo nos naufrague
gastos de ser o que somos
não mais que um medo de dizer
o quanto dói o que eu te amo
que é só dentro das tuas páginas
nas tuas húmidas e fecundas letras

March 19, 2008

tens um ar de cona impassível

tens um ar de cona impassível
dum agridoce virgem falido
nas forjas impantes do moderno
depilar a laser sem gritos
nas compras ao domingo
quando me fodes e eu acordo
nadando no teu líquido
cuspo-te a paragem de autocarro
e vou-me embora enquanto arde
no baixo ventre que te sagra
um leite espesso avinagrado
escorre pelos bordos do teu nome
um ar de cona impassível
de olhar fingido nos saldos
e no trabalho de beiços prometido
no dia da puta que pariu o Valentim
quando me falas do futuro e dos iates
cheia de merda nos cornos
pedes mais meia de planalto
e uma mousse para levar
onde quiseres que eu te lamba toda
da culpa que te fode o juízo
até ao lábio inferior onde desisto
enfiando-te dois dedos na boca
mordo-te por trás no pescoço
mordo-te e amo-te
preso de me esfregar em ti
no teu estilo ardiloso de fina
eu ponho a língua
entre o teu nome
e os lençóis encharcados de baba
abro-te com o nariz
um convite inesquecível
uma despesa absurda para pagar
os restos de um deslize na noite

March 15, 2008

que se fodam

que se fodam
do princípio ao fim de trás
de frente pelo meio
com mais ou menos
de pé de joelhos
aos cantos
na boca dormente
que se fodam
párias protocolos
papagaios de sala
gente mal aprendida
putas fáceis de convencer
bogas mal amanhadas
pedantes penteadinhos
que se fodam
com o que houver de limpo
entre a santa mãe religião
e o enxovalho de ser livre
nas grandes leis do mercado
que se fodam
ordinários de merda
escravizados do cimento
bonecos sem perspectiva
balsas sem salvamento
pessoas muito branquinhas
tão puras tão geniais
que se fodam
onde a cruz lhes for mais fundo
no apreciável remorso
do Império ardido
do melancólico mesquinho
derramando de sal
fodam-se nas lágrimas
condescendentes presunçosos
ministros da ordem do dia
porcelanas escaldadas
mimos d’engraxa o sapato
românticos rebarbados
filhos da grande cornuda
puta mãe de todas
fodam-se nas algibeiras
arrependam-se evangelizem-se
nas estrelas da União
que derruba as fronteiras
para a igualdade
fodam-se todos em geral
os animais da savana
os pinguins do antárctico
a floresta amazónia
o programa espacial
até à terceira geração
fodam-se todos na consciência
casta política
económico – canalha
Democratos cabeçudus
fodam-se na urna
atem-se à bandeira
enforquem-se nela
lambam tudo o que conseguirem
chupem chupem chupem
engulam até rebentar
e no fim peçam a reforma
como cidadãos de boa raça

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