A minha vizinha vive com um homem que esteve em coma três meses, devido a um violentíssimo acidente de comboio que tomou lugar numa linha ferroviária do sul, bastante noticiado na altura. O homem, seu companheiro, sofreu de uma grave lesão no sistema nervoso, razão pela qual perdeu a motricidade.
A minha vizinha tem cerca de dez gatos e sempre foi uma mulher muito elegante. Nunca tentei nada com ela, mas sempre lhe manifestei a minha simpatia, cumprimento-a todos os dias. É frequente observá-la estendendo a roupa no pequeno pátio enquanto trato dos canteiros. Desde que o seu namorado chegou que reparo na sua expressão mais pesada, parece-me até que tem emagrecido nestes últimos dias. Não digo isto porque ache que esteja a definhar com o pesado cargo que o destino da vida lhe confiou, mas porque a expressão pesada lhe dá um ar mais sério e altivo, e a magreza, sobretudo a magreza, aveluda-lhe a elegância, permitindo que lhe sobressaia uma beleza mais subtil.
A senhoria disse-me num dia em que veio cobrar a renda, que o pobre homem não tem quaisquer familiares vivos à excepção duma tia que ninguém sabe ao certo por onde anda e que pelos vistos pouco quer saber dele. Assim sendo a pobre é responsável pelo homem. Muda-lhe a fralda, lava-o, dá-lhe comida à boca. A senhoria diz que é muito triste ver uma jovem entregue a tal martírio.
Aos domingos, a minha vizinha costuma receber uns amigos no pequeno pátio, fazendo-se acompanhar do namorado para que este possa apanhar um pouco de sol. Aos domingos é o dia em que costumo podar as roseiras bravas, por isso, aproveito para ser suficientemente discreto e observá-los. O pobre homem não tem qualquer sensibilidade nos movimentos com os braços e derruba frequentemente uma chávena ou um copo, ou o que quer que se encontre sobre a mesa. Não consegue articular um discurso compreensível, apenas profere monossílabos e saliva abundantemente. As visitas não demoram muito tempo. Quando termino com as roseiras, já o pequeno pátio se encontra vazio. Por vezes a minha vizinha ainda fuma um cigarro encostada ao muro, e eu posso acenar-lhe cordialmente, ao que ela responde com um sorriso muito pouco forçado.
Uns dias atrás, a meio da semana, já depois do jantar, estava eu lendo um novo livro sobre técnicas de cultivo de plantas medicinais da América latina, a minha vizinha bateu-me à porta. Achei estranho, mas não hesitei. Abri a porta, convidei-a a entrar e perguntei-lhe em que lhe podia ser útil. Disse que estava fazendo um bolo de chocolate mas acabara-se o açúcar mascavado. Respondi não ter a certeza de que tinha tal açúcar, que teria de aguardar um pouco enquanto procurasse. Ofereci-lhe uma chávena do chá que me preparava para tomar. Perguntou-me se podia fumar e pediu-me um brandy.
Enquanto procurava pelo açúcar mascavado, a minha vizinha, que se encontrava sentada no sofá da minha sala de estar, começou a soluçar e quando cheguei perto dela chorava a lágrimas soltas. Logo não soube como agir, mas o instinto fez-me sentar a seu lado e segurar-lhe na mão dizendo-lhe algumas palavras de conforto. Ela olhou-me seriamente e atirou-se nos meus braços. A partir desse instante não mais tive controlo da situação.
No dia seguinte senti-me um pouco perturbado, o que ultrapassei facilmente ao convencer-me de que agi por caridade, e dadas as circunstâncias essa é uma justificação muito razoável. Uma coisa é certa, nos últimos tempos a minha vizinha parece-me menos infeliz. Por outro lado, bolo de chocolate é o meu preferido.