AGONIA (isto é um tema funky, como no baile)

March 15, 2008

que se fodam

que se fodam
do princípio ao fim de trás
de frente pelo meio
com mais ou menos
de pé de joelhos
aos cantos
na boca dormente
que se fodam
párias protocolos
papagaios de sala
gente mal aprendida
putas fáceis de convencer
bogas mal amanhadas
pedantes penteadinhos
que se fodam
com o que houver de limpo
entre a santa mãe religião
e o enxovalho de ser livre
nas grandes leis do mercado
que se fodam
ordinários de merda
escravizados do cimento
bonecos sem perspectiva
balsas sem salvamento
pessoas muito branquinhas
tão puras tão geniais
que se fodam
onde a cruz lhes for mais fundo
no apreciável remorso
do Império ardido
do melancólico mesquinho
derramando de sal
fodam-se nas lágrimas
condescendentes presunçosos
ministros da ordem do dia
porcelanas escaldadas
mimos d’engraxa o sapato
românticos rebarbados
filhos da grande cornuda
puta mãe de todas
fodam-se nas algibeiras
arrependam-se evangelizem-se
nas estrelas da União
que derruba as fronteiras
para a igualdade
fodam-se todos em geral
os animais da savana
os pinguins do antárctico
a floresta amazónia
o programa espacial
até à terceira geração
fodam-se todos na consciência
casta política
económico – canalha
Democratos cabeçudus
fodam-se na urna
atem-se à bandeira
enforquem-se nela
lambam tudo o que conseguirem
chupem chupem chupem
engulam até rebentar
e no fim peçam a reforma
como cidadãos de boa raça

3 Comments »

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  1. que bri-lha-rão
    joão mauzão

    só aos audazes o poder pertence

    Comment by sofia — March 15, 2008 @ 7:04 pm

  2. Grande, grande poema, João… Nos últimos tempos tenho-me vindo a questionar: até que ponto não estará a ser reacendida - pela Santíssima Trindade, em nome do Estado, do Poder e da Economia (ou do fosso que se alarga e das gentes que engolem tesouras) - a estética neo-realista… Não sei… Parece-me que um neo-neo-realismo-pós-moderno (só para classificar a coisa) se começa a construir. E pelo que pude conversar com o Pedro, não só em Portugal.

    Venha a transgressão, venha a ruptura.

    um abraço,

    pedro

    Fica aí este poema do Neruda, o meu favorito deste poeta.

    O homem invisível

    Eu rio-me
    sorrio-me
    dos velhos poetas,
    adoro toda
    a poesia escrita,
    todo o orvalho,
    lua, diamante, gota
    de prata submersa,
    que foi o meu antigo irmão,
    incluindo a rosa,
    mas
    sorrio-me
    sempre que falam
    dizem «eu»,
    sempre que algo
    lhes acontece
    é «eu» que dizem,
    nas ruas
    só eles passam
    ou a amada,
    ninguém mais,
    não passam pescadores,
    nem livreiros,
    nem pedreiros,
    dos andaimes
    ninguém cai,
    ninguém sofre,
    ninguém ama,
    somente ao meu pobre irmão,
    o poeta,
    todas as coisas
    lhe acontecem,
    a ele e à sua amada,
    ninguém existe
    senão ele,
    ninguém chora de fome
    ou de raiva,
    ninguém sofre nos seus versos
    por não poder
    pagar a renda da casa,
    a ninguém em poesia
    dão ordens de despejo
    e nas fábricas
    nada acontece,
    nada se passa,
    fazem-se guarda-chuvas, copos,
    armas, locomotivas,
    extraem-se minerais
    escavando o inferno,
    declara-se a greve,
    vêm os soldados
    e disparam,
    disparam contra o povo,
    quer dizer
    contra a poesia,
    e meu irmão
    o poeta
    estava apaixonado,
    ou sofria,
    porque os seus sentimentos
    são marinhos,
    ama os portos
    longínquos, pelos seus nomes,
    e escreve sobre oceanos
    que não conhece,
    junto à vida, repleta
    como uma espiga de milho,
    ele passa sem saber
    como debulhá-la,
    anda dum lado para o outro
    sem tocar no chão,
    ou sente-se às vezes
    profundíssimo
    e tenebroso,
    é tão importante
    que não cabe dentro de si,
    enreda-se e desenreda-se,
    declara-se maldito,
    leva a cruz das trevas
    a muito custo,
    julga-se diferente
    de toda a gente,
    todos os dias come pão
    mas nunca viu
    um padeiro
    ou entrou num sindicato
    de padeiros,
    e assim o meu pobre irmão
    torna-se obscuro,
    acha-se bizarro,
    bizarro,
    é a palavra,
    eu não sou superior
    ao meu irmão
    mas sorrio-me,
    quando ando pelas ruas
    torno-me ignorado,
    a vida corre
    como todos os rios,
    eu sou o único ser
    invisível,
    não há sombras misteriosas,
    não há trevas,
    toda a gente me fala,
    me conta coisas,
    falam-me das suas famílias,
    das suas misérias
    e das suas alegrias,
    todos ao passarem
    me dizem algo,
    e as coisas que fazem!
    cortam madeiras,
    fazem ligações eléctricas,
    amassam toda a noite
    o pão de cada dia,
    com uma lança de ferro
    rasgam as entranhas
    da terra
    e transformam o ferro
    em fechaduras,
    sobem ao céu e levam
    cartas, soluços, beijos,
    em cada porta
    há alguém,
    a cada momento
    alguém nasce,
    ou me espera aquela que eu amo,
    passo e as coisas
    pedem-me que as cante,
    o tempo não me sobra,
    tenho de pensar em todas as coisas,
    regressar a casa,
    passar pelo Partido,
    que hei-de eu fazer,
    tudo me pede
    que fale,
    tudo me pede
    que cante, cante sem parar,
    tudo está repleto
    de sonhos e de sons,
    a vida é uma gaiola
    cheia de cantos, abre-se
    e uma bandada
    de pássaros
    voando
    vem falar comigo,
    pousa nos meus ombros,
    a vida é uma batalha
    igual a um rio que corre
    e os homens
    querem dizer-me,
    querem dizer-te,
    porque lutam,
    se morrem,
    porque morrem,
    e eu passo e não tenho
    tempo para tantas vidas,
    eu quero
    que todos vivam
    na minha vida
    e cantem no meu canto,
    eu não tenho importância
    nem tempo
    para os meus assuntos,
    de noite e de dia
    tenho que apontar tudo o que se passa,
    e não esquecer ninguém.
    É certo que de repente
    me canso,
    fico a olhar as estrelas,
    estendo-me na relva, passa
    um insecto cor de violino,
    pouso o braço
    sobre um pequeno seio
    ou enlaço a cintura
    da minha amada,
    e vejo o veludo
    cruel
    da noite que estremece
    com as suas constelações geladas,
    então
    sinto subir à minha alma
    a onda dos mistérios,
    a infância,
    o pranto dos recantos,
    a adolescência triste,
    e o sono invade-me,
    durmo
    como uma macieira,
    fico adormecido
    repentinamente
    com as estrelas ou sem as estrelas,
    com o meu amor ou sem ele,
    e quando me levanto
    já a noite se desvaneceu,
    e a rua acordou antes de mim,
    a caminho do trabalho
    vão as raparigas pobres,
    os pescadores voltam
    do mar,
    os mineiros
    entram na mina
    de sapatos novos,
    tudo vive,
    todos passam,
    andam apressados,
    e eu apenas tenho tempo
    para me vestir,
    para sair correndo:
    ninguém pode
    passar sem que eu saiba
    para onde vai, ou que coisas
    lhe aconteceram.
    Não posso
    viver sem o afã da vida,
    sem o homem ser homem
    e corro e vejo e ouço
    e canto,
    as estrelas não têm
    nada a ver comigo,
    a solidão não tem
    flor nem fruto.
    Dai-me todas as vidas
    para a minha vida,
    de todo o mundo
    as suas dores,
    e eu transformarei tudo
    em esperança.
    Dai-me todas as alegrias,
    mesmo as mais secretas,
    porque se assim não fosse,
    como as saberíamos?
    Eu tenho que as contar,
    dai-me
    a luta
    de cada dia
    porque elas são o meu canto,
    e assim andaremos sempre juntos,
    lado a lado,
    todos os homens
    reunidos no meu canto:
    o canto do homem invisível
    que canta com todos os homens.

    in Odes Elementares

    Comment by pedro — March 16, 2008 @ 12:47 pm

  3. transgressão talvez, ruptura duvido muito.

    abraço

    Comment by joão bentes — March 16, 2008 @ 8:38 pm

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