que se fodam
que se fodam
do princípio ao fim de trás
de frente pelo meio
com mais ou menos
de pé de joelhos
aos cantos
na boca dormente
que se fodam
párias protocolos
papagaios de sala
gente mal aprendida
putas fáceis de convencer
bogas mal amanhadas
pedantes penteadinhos
que se fodam
com o que houver de limpo
entre a santa mãe religião
e o enxovalho de ser livre
nas grandes leis do mercado
que se fodam
ordinários de merda
escravizados do cimento
bonecos sem perspectiva
balsas sem salvamento
pessoas muito branquinhas
tão puras tão geniais
que se fodam
onde a cruz lhes for mais fundo
no apreciável remorso
do Império ardido
do melancólico mesquinho
derramando de sal
fodam-se nas lágrimas
condescendentes presunçosos
ministros da ordem do dia
porcelanas escaldadas
mimos d’engraxa o sapato
românticos rebarbados
filhos da grande cornuda
puta mãe de todas
fodam-se nas algibeiras
arrependam-se evangelizem-se
nas estrelas da União
que derruba as fronteiras
para a igualdade
fodam-se todos em geral
os animais da savana
os pinguins do antárctico
a floresta amazónia
o programa espacial
até à terceira geração
fodam-se todos na consciência
casta política
económico – canalha
Democratos cabeçudus
fodam-se na urna
atem-se à bandeira
enforquem-se nela
lambam tudo o que conseguirem
chupem chupem chupem
engulam até rebentar
e no fim peçam a reforma
como cidadãos de boa raça

que bri-lha-rão
joão mauzão
só aos audazes o poder pertence
Comment by sofia — March 15, 2008 @ 7:04 pm
Grande, grande poema, João… Nos últimos tempos tenho-me vindo a questionar: até que ponto não estará a ser reacendida - pela Santíssima Trindade, em nome do Estado, do Poder e da Economia (ou do fosso que se alarga e das gentes que engolem tesouras) - a estética neo-realista… Não sei… Parece-me que um neo-neo-realismo-pós-moderno (só para classificar a coisa) se começa a construir. E pelo que pude conversar com o Pedro, não só em Portugal.
Venha a transgressão, venha a ruptura.
um abraço,
pedro
Fica aí este poema do Neruda, o meu favorito deste poeta.
O homem invisível
Eu rio-me
sorrio-me
dos velhos poetas,
adoro toda
a poesia escrita,
todo o orvalho,
lua, diamante, gota
de prata submersa,
que foi o meu antigo irmão,
incluindo a rosa,
mas
sorrio-me
sempre que falam
dizem «eu»,
sempre que algo
lhes acontece
é «eu» que dizem,
nas ruas
só eles passam
ou a amada,
ninguém mais,
não passam pescadores,
nem livreiros,
nem pedreiros,
dos andaimes
ninguém cai,
ninguém sofre,
ninguém ama,
somente ao meu pobre irmão,
o poeta,
todas as coisas
lhe acontecem,
a ele e à sua amada,
ninguém existe
senão ele,
ninguém chora de fome
ou de raiva,
ninguém sofre nos seus versos
por não poder
pagar a renda da casa,
a ninguém em poesia
dão ordens de despejo
e nas fábricas
nada acontece,
nada se passa,
fazem-se guarda-chuvas, copos,
armas, locomotivas,
extraem-se minerais
escavando o inferno,
declara-se a greve,
vêm os soldados
e disparam,
disparam contra o povo,
quer dizer
contra a poesia,
e meu irmão
o poeta
estava apaixonado,
ou sofria,
porque os seus sentimentos
são marinhos,
ama os portos
longínquos, pelos seus nomes,
e escreve sobre oceanos
que não conhece,
junto à vida, repleta
como uma espiga de milho,
ele passa sem saber
como debulhá-la,
anda dum lado para o outro
sem tocar no chão,
ou sente-se às vezes
profundíssimo
e tenebroso,
é tão importante
que não cabe dentro de si,
enreda-se e desenreda-se,
declara-se maldito,
leva a cruz das trevas
a muito custo,
julga-se diferente
de toda a gente,
todos os dias come pão
mas nunca viu
um padeiro
ou entrou num sindicato
de padeiros,
e assim o meu pobre irmão
torna-se obscuro,
acha-se bizarro,
bizarro,
é a palavra,
eu não sou superior
ao meu irmão
mas sorrio-me,
quando ando pelas ruas
torno-me ignorado,
a vida corre
como todos os rios,
eu sou o único ser
invisível,
não há sombras misteriosas,
não há trevas,
toda a gente me fala,
me conta coisas,
falam-me das suas famílias,
das suas misérias
e das suas alegrias,
todos ao passarem
me dizem algo,
e as coisas que fazem!
cortam madeiras,
fazem ligações eléctricas,
amassam toda a noite
o pão de cada dia,
com uma lança de ferro
rasgam as entranhas
da terra
e transformam o ferro
em fechaduras,
sobem ao céu e levam
cartas, soluços, beijos,
em cada porta
há alguém,
a cada momento
alguém nasce,
ou me espera aquela que eu amo,
passo e as coisas
pedem-me que as cante,
o tempo não me sobra,
tenho de pensar em todas as coisas,
regressar a casa,
passar pelo Partido,
que hei-de eu fazer,
tudo me pede
que fale,
tudo me pede
que cante, cante sem parar,
tudo está repleto
de sonhos e de sons,
a vida é uma gaiola
cheia de cantos, abre-se
e uma bandada
de pássaros
voando
vem falar comigo,
pousa nos meus ombros,
a vida é uma batalha
igual a um rio que corre
e os homens
querem dizer-me,
querem dizer-te,
porque lutam,
se morrem,
porque morrem,
e eu passo e não tenho
tempo para tantas vidas,
eu quero
que todos vivam
na minha vida
e cantem no meu canto,
eu não tenho importância
nem tempo
para os meus assuntos,
de noite e de dia
tenho que apontar tudo o que se passa,
e não esquecer ninguém.
É certo que de repente
me canso,
fico a olhar as estrelas,
estendo-me na relva, passa
um insecto cor de violino,
pouso o braço
sobre um pequeno seio
ou enlaço a cintura
da minha amada,
e vejo o veludo
cruel
da noite que estremece
com as suas constelações geladas,
então
sinto subir à minha alma
a onda dos mistérios,
a infância,
o pranto dos recantos,
a adolescência triste,
e o sono invade-me,
durmo
como uma macieira,
fico adormecido
repentinamente
com as estrelas ou sem as estrelas,
com o meu amor ou sem ele,
e quando me levanto
já a noite se desvaneceu,
e a rua acordou antes de mim,
a caminho do trabalho
vão as raparigas pobres,
os pescadores voltam
do mar,
os mineiros
entram na mina
de sapatos novos,
tudo vive,
todos passam,
andam apressados,
e eu apenas tenho tempo
para me vestir,
para sair correndo:
ninguém pode
passar sem que eu saiba
para onde vai, ou que coisas
lhe aconteceram.
Não posso
viver sem o afã da vida,
sem o homem ser homem
e corro e vejo e ouço
e canto,
as estrelas não têm
nada a ver comigo,
a solidão não tem
flor nem fruto.
Dai-me todas as vidas
para a minha vida,
de todo o mundo
as suas dores,
e eu transformarei tudo
em esperança.
Dai-me todas as alegrias,
mesmo as mais secretas,
porque se assim não fosse,
como as saberíamos?
Eu tenho que as contar,
dai-me
a luta
de cada dia
porque elas são o meu canto,
e assim andaremos sempre juntos,
lado a lado,
todos os homens
reunidos no meu canto:
o canto do homem invisível
que canta com todos os homens.
in Odes Elementares
Comment by pedro — March 16, 2008 @ 12:47 pm
transgressão talvez, ruptura duvido muito.
abraço
Comment by joão bentes — March 16, 2008 @ 8:38 pm