Registo número seis
Garanto que o meu único propósito nessa noite era acabar com a garrafa de mezcal. Não me considero um homem de grandes planos, pois o tempo inutiliza a vontade própria, mas para os pequenos fins há que ser objectivo. Embora naquela altura me sentisse um pouco obcecado, por razões sofríveis e inconstantes, quando me sentei foi para não me tornar a levantar ou para que me levassem até parte incerta.
Foi então ao sétimo copo que ela se aproximou de mim e me pediu fogo. Coloquei o isqueiro à sua frente, em cima do balcão, e disse-lhe que para além daquele artifício me sentia com vontade de incendiar várias coisas à minha volta. Ela pediu um copo ao empregado e insinuou ter a disposição para me acompanhar naquela noite. Ao servir mais uma rodada tornei claro que a queria naquele instante. Colocou a mão sobre a minha perna, perto do joelho, deslizou-a até à virilha, e disse que tinha que ser mais persuasivo. Sorriu.
Não me recordo de termos trocado quaisquer palavras excepto quando lhe disse para se voltar de costas. O dia estava soalheiro e o seu corpo enchia-me os olhos. Deixei-me ficar aos pés da cama. Julgo nunca ter executado aquele golpe com tamanha perfeição. A incisão na jugular fora exímia, nada discrepante com todo o meu trabalho anterior. Quando acabei de lhe cortar o cabelo eram duas da tarde.
Ao sair para a rua olhei fixamente as minhas mãos. Apesar de as ter lavado umas réstias de sangue permaneciam entre as unhas. Ainda me via em cima dela com a faca na mão e o precioso vermelho a espirrar contra a parede. Tenho pena de lhe não ter tirado uma fotografia. Gostava de a ter sempre comigo. Nunca algo semelhante me deixou tão afectado. Quase não consigo dormir.
