AGONIA (isto é um tema funky, como no baile)

March 1, 2007

Registo número cinco

Não consigo desabituar-me do vício de comprar objectos antigos. Já várias vezes me confrontei com a razão mas sempre foi debalde. É difícil compreender que o único ambiente que me favorece seja tal como um mostruário decadentista de artefactos cuja origem é duvidosa. Todas as pessoas têm um plano para ocupar o espaço à sua volta. O meu é encher o quarto de antiguidades, ou daquilo que me vendem por antiguidades.

O Doutor diz que este tipo de desordem é comum em indivíduos que cresceram em meios compulsivos. A sua manifestação é uma certa excentricidade, uma tendência para o exagero de um recalcamento subtil da mente durante a infância. Curiosamente ocorrem-me alguns exemplos que facilmente se colam a esta normalização. Mas para mim a circunstância da vivência quotidiana é mais preponderante que qualquer trauma com dezenas de anos. Todavia esse distúrbio pode ser alimentado e perdurar.

A actividade de compra de objectos em antiquários requer grande astúcia. É preciso saber fazer parte do jogo, enganar antes de ser enganado. Por isso (e não é para me gabar, mas sou um excelente executante) quando entro num antiquário demoro-me sempre um pouco a observar cuidadosamente os objectos expostos, procuro parecer meticuloso e para provocar tal efeito, quando seguro uma peça na mão recorro a um óculo que amplia a visão até quinze vezes. Da primeira vez que algum empregado se me dirige oferecendo ajuda, dispenso apaticamente os seus serviços.

Quando utilizo o óculo uma segunda vez, por vezes uma terceira, consigo finalmente a atenção do gerente. Conversamos um pouco sobre certas peças expostas, que geralmente são indicadas por mim, para que possa manter o controlo, pois percebo um pouco de metais e de forja, assim como sou entendido em alguns utensílios antigos. Alimento a conversa até que seja conveniente, até que se um ambiente de confiança.

O que sucede mais vezes, pelo meio da conversa, é o gerente interrogar-me se procuro algum artigo em particular. É aqui o momento crucial em que jogo começa a correr em meu favor. Digo que procuro, utilizando pormenores elaboradíssimos, uma certa peça de requinte que não existe. Raramente me surpreendem com um “Desconheço” ou “Infelizmente não temos.” Frequentemente acontece deixarem-me esperar um pouco e regressarem rejubilantes com qualquer coisa que não faço a mínima ideia o que seja mas que se trata daquilo que procuro. Acabo sempre por fazer um bom negócio e ás vezes consigo baixar o preço em mais de cinquenta por cento da oferta inicial.

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