Marinada
Para todos os que se sentem poetas/escritores destemperados, a melhor oferta para esta semana é uma marinada com muito alho.
Para todos os que se sentem poetas/escritores destemperados, a melhor oferta para esta semana é uma marinada com muito alho.
Julgo que a minha educação falhou de alguma forma, e que esse assinalável embuste escapa à capacidade de juízo da minha natureza. Sou por isso uma pessoa amedrontada. Não porque receie que algum desconhecido na rua me esfaqueie a troco de míseras importâncias, mas sim porque a minha lucidez é uma estranheza pouco abrangente. À imagem do meu rosto todos os outros são pouco esclarecidos. É devido a essa falta de confiança que os meus sentimentos são uma névoa de emotividades suspensas num paralelismo sempre ambíguo, desguarnecidos da clareza própria aos homens fortes.
Infelizmente nunca me considero ridículo, nem de algum modo penso que as minhas atitudes podem ser desrespeitosas, pelo que não posso, e ninguém pode, em qualquer situação, colocar a minha seriedade em causa. Não sei se estas observações abreviam-me a indolência, ou se a força da minha expressão terá suficiência redundante.
Não sou um indivíduo político, mas estou guarnecido de tal promiscuidade. Tenho a certeza de que conspiram contra mim, mas a minha fragilidade é hostil e acabarei por me tornar mártir. Tratar-se-á de mesquinhice ou decadentismo senil. Há quem no vulgo me ache a personagem trágica de um enredo extremamente óbvio. Enfim, sempre houve de tudo e para todos. Eu não vou além da minha fúnebre tristeza, do masoquismo da minha melancolia.
Para os que se sentem defraudados, a melhor oferta desta semana são lupas de alta resolução com cabo de marfim e incrustações de várias pedras preciosas sobre platina. Para os que não se sentirem, há como melhor oferta rigorosamente nada.
Tenho andado menos mal nestes últimos dias. As vertigens têm sido menos frequentes e até me permiti alguns momentos de convívio social descomprometido. Já não sei porque razão surgiu esta minha dificuldade. De súbito vi-me isolado numa nostalgia deprimente e repreensível. Sempre fui uma pessoa pouco afectuosa, mesmo quando me predispus a certas intimidades. Mas não julgo ser a frieza das emoções o que me demove da empatia pelas outras pessoas. Há certas coisas que se bloqueiam à minha compreensão, ou se tornam irresolúveis com o acumular de circunstâncias nos dias mais sombrios.
Acho que não sou uma pessoa desconfiada, mas custam-me os contactos que exigem delicada educação e/ou atitudes libertárias. Eu tenho interesses. Recuso-me à entrega que determinadas relações exigem, porque nelas incorrem inúmeros factores de desvantagem.
Aquilo de que falo não é assim tão invulgar, eu próprio já constatei isso em várias ocasiões, pelo que não me posso achar invulgar. No fundo tratamo-nos todos por equivalências de igualdade, sejam elas meras suposições ou artifícios excêntricos do ego. Há quem descure o ego, há quem o faça prevalecer acima de todas as satisfações, mas no fim tudo se resolve nas inocuidades do social risível.
Se tenho andado afastado, julgo tratar-se do malabarismo da minha subsistência. O isolamento pode ser um processo de cisão, mas também uma vulnerabilidade com sintomas de ineficácia. Nunca tomei grandes decisões irreparáveis. O que me sustém continua a ser visível, e apesar de tudo, continuo a fazer telefonemas absurdos.
Uma atenção para todos os que precisam: melhor oferta para esta semana, que começou soalheira, são garrotes em borracha altamente resistente, capturada nas florestas virgens por indígenas.
Garanto que o meu único propósito nessa noite era acabar com a garrafa de mezcal. Não me considero um homem de grandes planos, pois o tempo inutiliza a vontade própria, mas para os pequenos fins há que ser objectivo. Embora naquela altura me sentisse um pouco obcecado, por razões sofríveis e inconstantes, quando me sentei foi para não me tornar a levantar ou para que me levassem até parte incerta.
Foi então ao sétimo copo que ela se aproximou de mim e me pediu fogo. Coloquei o isqueiro à sua frente, em cima do balcão, e disse-lhe que para além daquele artifício me sentia com vontade de incendiar várias coisas à minha volta. Ela pediu um copo ao empregado e insinuou ter a disposição para me acompanhar naquela noite. Ao servir mais uma rodada tornei claro que a queria naquele instante. Colocou a mão sobre a minha perna, perto do joelho, deslizou-a até à virilha, e disse que tinha que ser mais persuasivo. Sorriu.
Não me recordo de termos trocado quaisquer palavras excepto quando lhe disse para se voltar de costas. O dia estava soalheiro e o seu corpo enchia-me os olhos. Deixei-me ficar aos pés da cama. Julgo nunca ter executado aquele golpe com tamanha perfeição. A incisão na jugular fora exímia, nada discrepante com todo o meu trabalho anterior. Quando acabei de lhe cortar o cabelo eram duas da tarde.
Ao sair para a rua olhei fixamente as minhas mãos. Apesar de as ter lavado umas réstias de sangue permaneciam entre as unhas. Ainda me via em cima dela com a faca na mão e o precioso vermelho a espirrar contra a parede. Tenho pena de lhe não ter tirado uma fotografia. Gostava de a ter sempre comigo. Nunca algo semelhante me deixou tão afectado. Quase não consigo dormir.
Desolação crónica
a mortalha que te cobre
a corda que te enleia
artéria por artéria
obstinadamente convulsa
toma o narcótico forte
purga o remorso decadente
da insane luxúria
alivia o ócio cálido
O desejo frívolo
embalsa-te o espectro
como ao rosto lívido
a maquilhagem favorece
A melhor oferta desta semana é um potentíssimo computador inspirado no famoso congénere HAL 9000, do épico de Kubrick, capaz de jogar à sueca e responder às mais variadas e intrigantes questões utilizando as vozes sensuais de mulheres esbeltas.
Não consigo desabituar-me do vício de comprar objectos antigos. Já várias vezes me confrontei com a razão mas sempre foi debalde. É difícil compreender que o único ambiente que me favorece seja tal como um mostruário decadentista de artefactos cuja origem é duvidosa. Todas as pessoas têm um plano para ocupar o espaço à sua volta. O meu é encher o quarto de antiguidades, ou daquilo que me vendem por antiguidades.
O Doutor diz que este tipo de desordem é comum em indivíduos que cresceram em meios compulsivos. A sua manifestação é uma certa excentricidade, uma tendência para o exagero de um recalcamento subtil da mente durante a infância. Curiosamente ocorrem-me alguns exemplos que facilmente se colam a esta normalização. Mas para mim a circunstância da vivência quotidiana é mais preponderante que qualquer trauma com dezenas de anos. Todavia esse distúrbio pode ser alimentado e perdurar.
A actividade de compra de objectos em antiquários requer grande astúcia. É preciso saber fazer parte do jogo, enganar antes de ser enganado. Por isso (e não é para me gabar, mas sou um excelente executante) quando entro num antiquário demoro-me sempre um pouco a observar cuidadosamente os objectos expostos, procuro parecer meticuloso e para provocar tal efeito, quando seguro uma peça na mão recorro a um óculo que amplia a visão até quinze vezes. Da primeira vez que algum empregado se me dirige oferecendo ajuda, dispenso apaticamente os seus serviços.
Quando utilizo o óculo uma segunda vez, por vezes uma terceira, consigo finalmente a atenção do gerente. Conversamos um pouco sobre certas peças expostas, que geralmente são indicadas por mim, para que possa manter o controlo, pois percebo um pouco de metais e de forja, assim como sou entendido em alguns utensílios antigos. Alimento a conversa até que seja conveniente, até que se um ambiente de confiança.
O que sucede mais vezes, pelo meio da conversa, é o gerente interrogar-me se procuro algum artigo em particular. É aqui o momento crucial em que jogo começa a correr em meu favor. Digo que procuro, utilizando pormenores elaboradíssimos, uma certa peça de requinte que não existe. Raramente me surpreendem com um “Desconheço” ou “Infelizmente não temos.” Frequentemente acontece deixarem-me esperar um pouco e regressarem rejubilantes com qualquer coisa que não faço a mínima ideia o que seja mas que se trata daquilo que procuro. Acabo sempre por fazer um bom negócio e ás vezes consigo baixar o preço em mais de cinquenta por cento da oferta inicial.
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