O senhor Gonzaga sempre foi caridoso comigo ajudando-me bastante quando me empregou na sua cafetaria. Como sempre tive, desde miúdo, um certo fascínio pela profissão, embora me encontra-se na altura em dificuldades financeiras, apliquei-me ao máximo no desempenho das minhas funções e em pouco tempo me tornei o empregado mais expedito, dando primazia à cordialidade e à simpatia no contacto com o cliente.
Gradualmente o senhor Gonzaga foi-me confiando funções de maior responsabilidade. Ao fim de um mês ao serviço estava-me confiada a manutenção do armazém de bebidas espirituosas, onde tinha de lidar com a gestão do stock de licores raros que boa fama deram à casa. Ainda durante esse Inverno, o senhor Gonzaga encarregou-me da abertura e encerramento do estabelecimento aos fins-de-semana, de modo a que pudesse despender mais tempo de lazer.
Passados cinco anos sou subgerente da Cafetaria Familiar e o senhor Gonzaga passa lá muito pouco tempo, excepto na altura do pagamento de ordenados ou quando é necessário tratar de contas com os fornecedores. Todas as semanas, especialmente ao sábado e ao domingo, almoço com a sua família na casa de campo. Apraz-me bastante. Dado o importante cargo que tenho e o desempenho irrepreensível das minhas funções, sendo crucial para a expansão do negócio a outros ramos (particularmente de revendedor de produtos de pastelaria pouco comuns por aqui), o senhor Gonzaga considera-me parte da família, pois segundo ele é esse o pilar dos valores, base da confiança e da palavra entre os homens, como um código de voto moral acima do sangue ou da religião.
Conheci a sobrinha do senhor Gonzaga quando comecei a frequentar a sua casa com maior regularidade. A jovem, que tomou em sua tutela, é órfã de pai e mãe e tem um braço ligeiramente mais curto que o outro. É uma rapariga tímida bastante pálida e costuma andar com uns vestidinhos muito leves que a enternecem, e disfarçam na perfeição o problema dos braços. O senhor Gonzaga incitou-me a convidá-la para sair.
Na primeira vez que saímos fomos ao cinema e ela escolheu o filme. Chamava-se Intrigas e Paixões, dizia tratar-se de um drama romântico aclamado pela crítica. Saiu de lá lavada em lágrimas com apetites de gelado. Simplificando, o tempo que passamos juntos é de alguma forma entediante. Perde-se em discursos insólitos sobre o amor e as paixões, fala me de inúmeras histórias fatalistas sobre amantes inveterados, personagens de novelas de bolso de segunda categoria, exige-me constantes provas de afecto, arrasta-me para as suas ininteligíveis fantasias românticas, uma rede de sentimentos paradoxais da qual não me posso livrar.
Como o senhor Gonzaga diz, a família é um pilar e os homens de valores devem honrá-la. O senhor Gonzaga não tem filhos. A sua sobrinha pede-me sempre para fazermos um caminho mais longo quando regressamos do cinema, depois de assistirmos a mais um drama romântico extremamente emotivo. Nem sequer me apercebo do problema nos braços. A cafetaria é um negócio onde se pode aprender bastante. Sempre me fascinou desde miúdo.