Registo número dois
Pela manhã, assim que fico sozinho em casa, a minha tarefa é organizar os vários jornais, dos quais sou assinante, por ordem de importância. Distribuo-os por quatro categorias: os mais importantes, os de alguma importância, os que não têm importância alguma e os que já duvidei mais do que uma vez em qual das outras categorias deveria ser integrado.
Depois certifico-me de que em cada categoria os jornais estão colocados por ordem de tamanho, e de que todos os vértices do lado inferior esquerdo estão em alinhamento. Quando vejo que tudo se encontra perfeitamente arrumado, ao me situar no ponto máximo de conforto que a minha cadeira permite (isto é, por exemplo, conseguir alcançar qualquer um dos jornais categorizados), abro a gaveta à qual chego com a mão direita sem o mínimo de esforço. Daí retiro, primeiro, o meu caderno de notas cor de jade, e segundo, a tesoura de liga metálica não oxidável. O caderno de notas abro-o na página devida e acomodo-o do lado direito da secretária. À tesoura, até que seja necessária, mantenho-a do lado oposto ao caderno, junto ao agrafador. Assim fico com espaço ao centro para poder folhear tranquilamente cada jornal, sem que os restantes objectos interfiram minimamente. Retiro então a caneta Parker do bolso da frente da camisa, pressiono a mola, e pouso-a no centro do caderno de notas com o alfinete que a prende à camisa voltado para cima.
O meu trabalho consiste em procurar as notícias às quais se deve dar mais destaque, podendo delas sortir um precioso conteúdo (julgo que muita informação é desprezada hoje em dia, ou então é subavaliada). Ao folhear cada jornal tomo nota no caderno de notas das notícias que acho serem as verdadeiramente importantes. Tomo nota da data, do nome do jornal, da categoria em que está inserido, da página, da secção, do título da notícia, do autor ou autores, e em três tópicos (de não mais que uma linha cada) enuncio os factos que são relatados. Ao concluir as notas, volto atrás, recorto todas as notícias que constam no caderno com a tesoura, e agrafo-as à respectiva página, de modo a não obstruir a leitura dos meus apontamentos.
O meu objectivo é daqui por vinte anos poder publicar um jornal dedicado exclusivamente às notícias do passado que foram menosprezadas. Sei que o meu método tem falhas, mas tenho vindo a introduzir pequenas alterações que começam a sortir efeito. Penso que ainda tenho muita margem de manobra. Registo pequenos progressos de dia para dia. Os sedativos não influenciam o meu desempenho.

João,
gostei deste registos, da verdade absurda que eles exalam, uma ceta poesia suada.
abraço
Luís
Comment by Luís Ene — February 5, 2007 @ 11:28 am
Estaremos a assistir ao nascimento de um prosador? Apraz-me a sombra de Kafka.
Um abraço,
pedro sousa
Comment by pedro sousa — February 5, 2007 @ 12:56 pm
I)
caminho até casa com ar de quem está muito ocupado. a rua está um inferno! o passeio e a rua são estreitos e neles os motores esperam pelo verde (brumm) e as gentes atropelam-se. (vou pensando que não devia ter saído de casa). olho em frente, viro a esquina, do bolso retiro as chaves; com elas vou apressando o passo sem olhar para rostos. esta é a minha rua. está sol, é manhã de agosto. sou abordado por uma prostituta. [esta é nova por cá. só pode: e bem novita por sinal: reparo] por fim casa. chave. fechadura; gente que não me deixa passar e eu sem vontade nenhuma (…) por fim abro a porta, fecho-a, escadas á minha frente, está fresco. respiro de alívio. -porta bate-. e por deixo de estar atormentado pelo ar inssurcedor de lá de fora. subo calmamente. os passos que se me seguem, arrastam-se, a mão, acompanha a subida pelo corrimão e as escadas vão se tornando cada vez mais íngremes e estreitas. subo até ao 3º andar. por fim, ao chegar repouso meu ombro na parede, -chaves; fechadura, abro-a calmamente (click), e num safanão lento e demorado, ela abre-se na sua totalidade (pock)- ela bate na parede ao de leve.
está abafado penso. e o ar carregado de ácaros é um facto.
Comment by sofia — February 24, 2008 @ 11:04 pm
-correcção-
… e por (fim) deixo de estar atormentado….
Comment by sofia — February 24, 2008 @ 11:07 pm