AGONIA (isto é um tema funky, como no baile)

February 28, 2007

Veneno da tua língua

Filed under: Bestiário

Veneno da tua língua
a precisão necrológica
dos membros tristes
envaidecendo-te a penumbra

Para onde vais desplante
enfermo diário da usura
férrica sutura macilenta

Que mais te cerca o nervo
o cárcere traumatológico
os fluidos libidinosos
ou os despojos do calor
incendiados em tua cama

Antes dorida solidão
que o frémito viciado
de te acabar inglório
cancelamento ritual

February 26, 2007

habitáculo escuro

Filed under: Bestiário

Dose dupla

Uma vacina contra a malária é a melhor oferta da semana, exclusivamente para todos os habitantes da África subsariana.

Para a população do mundo mais desenvolvido, a melhor oferta é um sofisticadíssimo tipo de cigarro do qual foram removidas cerca de quinhentas substâncias que podem provocar cancro, reduzindo assim os riscos para a saúde de todos.

February 24, 2007

Seja o que for que virá

Filed under: Bestiário

Seja o que for que virá
venhas tu como vieres
casta pura viúva pútrida
em teu sepulcro nada
alterarei nem o nome

E como sei que me virei
pelo lado em que te abandono
de qualquer forma agradeço
me dares atenção toda

February 22, 2007

Em atónita transigência

Filed under: Bestiário

Em atónita transigência
permaneces enterrada de supérflua
nessa coisa de azul já decrépito

Bates cega na madeira
tua languidez obsessivamente
nada tens de violência
no pulso abrindo o sangue

Que saibas tratar-se de memória viva
o animal que solto entre as chamas
ao te rasgar toda

Vinil

A melhor oferta desta semana é uma edição rara da Odisseia, em vinil, contendo uma faixa extra onde se prova que Penélope traiu Ulisses.

Registo número quatro

O senhor Gonzaga sempre foi caridoso comigo ajudando-me bastante quando me empregou na sua cafetaria. Como sempre tive, desde miúdo, um certo fascínio pela profissão, embora me encontra-se na altura em dificuldades financeiras, apliquei-me ao máximo no desempenho das minhas funções e em pouco tempo me tornei o empregado mais expedito, dando primazia à cordialidade e à simpatia no contacto com o cliente.

Gradualmente o senhor Gonzaga foi-me confiando funções de maior responsabilidade. Ao fim de um mês ao serviço estava-me confiada a manutenção do armazém de bebidas espirituosas, onde tinha de lidar com a gestão do stock de licores raros que boa fama deram à casa. Ainda durante esse Inverno, o senhor Gonzaga encarregou-me da abertura e encerramento do estabelecimento aos fins-de-semana, de modo a que pudesse despender mais tempo de lazer.

Passados cinco anos sou subgerente da Cafetaria Familiar e o senhor Gonzaga passa lá muito pouco tempo, excepto na altura do pagamento de ordenados ou quando é necessário tratar de contas com os fornecedores. Todas as semanas, especialmente ao sábado e ao domingo, almoço com a sua família na casa de campo. Apraz-me bastante. Dado o importante cargo que tenho e o desempenho irrepreensível das minhas funções, sendo crucial para a expansão do negócio a outros ramos (particularmente de revendedor de produtos de pastelaria pouco comuns por aqui), o senhor Gonzaga considera-me parte da família, pois segundo ele é esse o pilar dos valores, base da confiança e da palavra entre os homens, como um código de voto moral acima do sangue ou da religião.

Conheci a sobrinha do senhor Gonzaga quando comecei a frequentar a sua casa com maior regularidade. A jovem, que tomou em sua tutela, é órfã de pai e mãe e tem um braço ligeiramente mais curto que o outro. É uma rapariga tímida bastante pálida e costuma andar com uns vestidinhos muito leves que a enternecem, e disfarçam na perfeição o problema dos braços. O senhor Gonzaga incitou-me a convidá-la para sair.

Na primeira vez que saímos fomos ao cinema e ela escolheu o filme. Chamava-se Intrigas e Paixões, dizia tratar-se de um drama romântico aclamado pela crítica. Saiu de lá lavada em lágrimas com apetites de gelado. Simplificando, o tempo que passamos juntos é de alguma forma entediante. Perde-se em discursos insólitos sobre o amor e as paixões, fala me de inúmeras histórias fatalistas sobre amantes inveterados, personagens de novelas de bolso de segunda categoria, exige-me constantes provas de afecto, arrasta-me para as suas ininteligíveis fantasias românticas, uma rede de sentimentos paradoxais da qual não me posso livrar.

Como o senhor Gonzaga diz, a família é um pilar e os homens de valores devem honrá-la. O senhor Gonzaga não tem filhos. A sua sobrinha pede-me sempre para fazermos um caminho mais longo quando regressamos do cinema, depois de assistirmos a mais um drama romântico extremamente emotivo. Nem sequer me apercebo do problema nos braços. A cafetaria é um negócio onde se pode aprender bastante. Sempre me fascinou desde miúdo.

February 16, 2007

enlacemos as mãos Lídia

Filed under: Bestiário

enlacemos as mãos Lídia

e até mais que isso

porque o tempo

não pára e o rio

corre


enlacemos as mãos Lídia

as pernas os lábios

até mais que isso

Lídia enlacemos


Há‑de o rio me levar

ao altar dos antigos


três moedas deixarem

que te paguem

o barqueiro e o tempo


apressemo‑nos Lídia

apressemo‑nos

February 15, 2007

Chega para ti o enxofre

Filed under: Bestiário

Chega para ti o enxofre

ou tomas mais do ácido

que apaga a realidade

 

Não te incomode a temperatura

abre as pernas como em teu quarto

refresca as tuas intimidades

 

Que o basalto te acomode

onde fica bem a violência

e te sirva a promiscuidade

 

Então que achas do Inferno

tu que te perdeste

nas trágicas veleidades

Naturezas Mortas/Objecto três

Filed under: Pornografia

February 13, 2007

Registo número três

A minha vizinha vive com um homem que esteve em coma três meses, devido a um violentíssimo acidente de comboio que tomou lugar numa linha ferroviária do sul, bastante noticiado na altura. O homem, seu companheiro, sofreu de uma grave lesão no sistema nervoso, razão pela qual perdeu a motricidade.

A minha vizinha tem cerca de dez gatos e sempre foi uma mulher muito elegante. Nunca tentei nada com ela, mas sempre lhe manifestei a minha simpatia, cumprimento-a todos os dias. É frequente observá-la estendendo a roupa no pequeno pátio enquanto trato dos canteiros. Desde que o seu namorado chegou que reparo na sua expressão mais pesada, parece-me até que tem emagrecido nestes últimos dias. Não digo isto porque ache que esteja a definhar com o pesado cargo que o destino da vida lhe confiou, mas porque a expressão pesada lhe dá um ar mais sério e altivo, e a magreza, sobretudo a magreza, aveluda-lhe a elegância, permitindo que lhe sobressaia uma beleza mais subtil.

A senhoria disse-me num dia em que veio cobrar a renda, que o pobre homem não tem quaisquer familiares vivos à excepção duma tia que ninguém sabe ao certo por onde anda e que pelos vistos pouco quer saber dele. Assim sendo a pobre é responsável pelo homem. Muda-lhe a fralda, lava-o, dá-lhe comida à boca. A senhoria diz que é muito triste ver uma jovem entregue a tal martírio.

Aos domingos, a minha vizinha costuma receber uns amigos no pequeno pátio, fazendo-se acompanhar do namorado para que este possa apanhar um pouco de sol. Aos domingos é o dia em que costumo podar as roseiras bravas, por isso, aproveito para ser suficientemente discreto e observá-los. O pobre homem não tem qualquer sensibilidade nos movimentos com os braços e derruba frequentemente uma chávena ou um copo, ou o que quer que se encontre sobre a mesa. Não consegue articular um discurso compreensível, apenas profere monossílabos e saliva abundantemente. As visitas não demoram muito tempo. Quando termino com as roseiras, já o pequeno pátio se encontra vazio. Por vezes a minha vizinha ainda fuma um cigarro encostada ao muro, e eu posso acenar-lhe cordialmente, ao que ela responde com um sorriso muito pouco forçado.

Uns dias atrás, a meio da semana, já depois do jantar, estava eu lendo um novo livro sobre técnicas de cultivo de plantas medicinais da América latina, a minha vizinha bateu-me à porta. Achei estranho, mas não hesitei. Abri a porta, convidei-a a entrar e perguntei-lhe em que lhe podia ser útil. Disse que estava fazendo um bolo de chocolate mas acabara-se o açúcar mascavado. Respondi não ter a certeza de que tinha tal açúcar, que teria de aguardar um pouco enquanto procurasse. Ofereci-lhe uma chávena do chá que me preparava para tomar. Perguntou-me se podia fumar e pediu-me um brandy.

Enquanto procurava pelo açúcar mascavado, a minha vizinha, que se encontrava sentada no sofá da minha sala de estar, começou a soluçar e quando cheguei perto dela chorava a lágrimas soltas. Logo não soube como agir, mas o instinto fez-me sentar a seu lado e segurar-lhe na mão dizendo-lhe algumas palavras de conforto. Ela olhou-me seriamente e atirou-se nos meus braços. A partir desse instante não mais tive controlo da situação.

No dia seguinte senti-me um pouco perturbado, o que ultrapassei facilmente ao convencer-me de que agi por caridade, e dadas as circunstâncias essa é uma justificação muito razoável. Uma coisa é certa, nos últimos tempos a minha vizinha parece-me menos infeliz. Por outro lado, bolo de chocolate é o meu preferido.

podes dizer o incêndio

Filed under: Bestiário

podes dizer o incêndio

o que te lavra a nudez

mas eu sei porque te sentas

com a mão entre as pernas

 

podes dizer a solidão

AI DE MIM MULHER GASTA

mas eu sei porque razão

a espuma te arde na boca

 

podes dizer-te toda

em singela intimidade

mas eu sei porque te voltas

na humidade do quarto

 

podes dizer que sofres

procuras não encontras

mas eu sei o que te consola

do que tu precisas eu falo

February 12, 2007

Pedra

A melhor oferta da semana é uma pedra de calçada do Bairro Alto, do preciso local onde alguém escorregou perdendo a virgindade.

February 9, 2007

estranhos costumes esses

Filed under: Bestiário

estranhos costumes esses

lavas a boca na lama

não proferes a palavra mítica

 

guardas-te puros arquétipos

dizes preciosas relíquias

és hipocondríaca sentimentalista

 

Aproxima-te do fogo

negras estátuas ruídas

te esperamos ao altar

 

Junta-te a nós feia      dança

celebra o holocausto

saceia-nos a fome imensa

February 8, 2007

ainda podemos ser felizes

Filed under: Bestiário

ainda podemos ser felizes

Dizes quando acabas

o que interessa          isso

Respondo quando abalo

O chão colapsa em tua volta

Filed under: Bestiário

O chão colapsa em tua volta

contorces-te à luz insípida

assim te arrastas e propagas

nauseabunda obsoleta

 

Sofres dor de consumo rápido

enfática és um tédio

tens qualquer coisa de parasita

e os pés quentes na mediocridade

 

Sobe mais um degrau_senta-te

daqui a pouco servem o ópio

e até que o resto apodreça

poderás carpir a tua mágoa

Get free blog up and running in minutes with Blogsome
Theme designed by Jay of onefinejay.com