AGONIA (isto é um tema funky, como no baile)

January 25, 2007

Registo número um

O Assistente disse‑me que me devia esforçar mais, recorrer às novas tecnologias, procurar possíveis contactos. Quando olho por cima do ombro, reparo em todas as pessoas, e repito a mim mesmo o absurdo que é estarmos todos ali.

De caminho para casa vou olhando o meu reflexo nas montras. Paro para um café no local que me parece adequado. Assim que entro faço entender ao empregado o meu pedido. Sorri-o a uma senhora de meia idade de presença bastante agradável. Assim que resolvo esta situação escolho uma mesa mais recatada, sento-me e vou folheando o jornal. Esforço o meu interesse, e sou tão bem sucedido, que nem reparo que a senhora se aproxima agitando com o braço franzino, mas esbelto, a minha carteira.

Agradeço‑lhe várias vezes. Timidamente, no instante em que silenciamos os dois, convido-a a sentar-se comigo um pouco. Conversamos sobre inúmeras futilidades. Constato que vive cá à não muito mais que um mês. Explico-lhe que não é meu costume fazer isto mas, convido-a para jantar comigo. Ela acede ao meu pedido e mostra-se bastante interessada. Trocamos uns olhares intensos, e eu ponho a minha mão sobre a sua perna. Recebo uma bofetada.

Telefono ao Doutor. Escassos minutos e estou no consultório. Digo tudo e mais alguma coisa. Exprimo-lhe de qualquer forma que as pessoas deviam ser mais tolerantes e tentar compreender os outros. Ele replica, investindo contra mim no tal problema da tensão sexual. Eu repito-lhe que uma carícia na perna de uma mulher é um gesto inocente. Responde-me que o comprometimento é consequência da atitude. Devo modelar o meu comportamento de forma realista à intenção de quem me interpela. Insisto novamente na questão da tolerância, mas o Doutor quebra-me o raciocínio a meio, ao entregar‑me a receita. Fico feliz por isso.

Passo pela farmácia. Durmo descansado.

Olha para mim Lídia

Filed under: Bestiário

Olha para mim Lídia

supostamente um nome

lacrando os objectos

 

Olha para mim Lídia

um cordel de prumo

o mais alto dos templos

 

Olha para mim Lídia

um sinal binário

ao toque dos teus dedos

 

Olha para mim Lídia

que escrevo com tanta dor

todos os meus medos

 

Olha para mim Lídia

distúrbio romântico

do êxtase dos tempos

 

Olha para mim Lídia

toda esta inconsequência

toda esta falta de charme

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