O Assistente disse‑me que me devia esforçar mais, recorrer às novas tecnologias, procurar possíveis contactos. Quando olho por cima do ombro, reparo em todas as pessoas, e repito a mim mesmo o absurdo que é estarmos todos ali.
De caminho para casa vou olhando o meu reflexo nas montras. Paro para um café no local que me parece adequado. Assim que entro faço entender ao empregado o meu pedido. Sorri-o a uma senhora de meia idade de presença bastante agradável. Assim que resolvo esta situação escolho uma mesa mais recatada, sento-me e vou folheando o jornal. Esforço o meu interesse, e sou tão bem sucedido, que nem reparo que a senhora se aproxima agitando com o braço franzino, mas esbelto, a minha carteira.
Agradeço‑lhe várias vezes. Timidamente, no instante em que silenciamos os dois, convido-a a sentar-se comigo um pouco. Conversamos sobre inúmeras futilidades. Constato que vive cá à não muito mais que um mês. Explico-lhe que não é meu costume fazer isto mas, convido-a para jantar comigo. Ela acede ao meu pedido e mostra-se bastante interessada. Trocamos uns olhares intensos, e eu ponho a minha mão sobre a sua perna. Recebo uma bofetada.
Telefono ao Doutor. Escassos minutos e estou no consultório. Digo tudo e mais alguma coisa. Exprimo-lhe de qualquer forma que as pessoas deviam ser mais tolerantes e tentar compreender os outros. Ele replica, investindo contra mim no tal problema da tensão sexual. Eu repito-lhe que uma carícia na perna de uma mulher é um gesto inocente. Responde-me que o comprometimento é consequência da atitude. Devo modelar o meu comportamento de forma realista à intenção de quem me interpela. Insisto novamente na questão da tolerância, mas o Doutor quebra-me o raciocínio a meio, ao entregar‑me a receita. Fico feliz por isso.
Passo pela farmácia. Durmo descansado.